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Embriões congelados ficam sem destino; Brasil tem 8 mil

Data: Sábado, 15/01/2011 00:00

Fonte:Terra

Em outubro de 2010, a cantora Céline Dion deu à luz os gêmeos Nelson e Eddy. A gravidez foi resultado de um tratamento de fertilização in vitro realizado oito anos antes, quando o marido da cantora descobriu ter um câncer. Os embriões de Nelson e Eddy permaneceram congelados em uma clínica especializada. E não foram só os dois: outros embriões da cantora e do marido estariam congelados na clínica. O que acontece com eles? Vão ficar lá para sempre?

Clínicas especializadas em fertilização seguem seus próprios protocolos, podendo optar pelo congelamento de embriões ou de óvulos. Em média, são retirados e fecundados oito óvulos de cada paciente, e quatro são utilizados em tentativas de engravidar. Os demais ficam congelados e representavam em 2009 uma "multidão" de 8.058 embriões somente no Brasil, segundo dados da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Segundo o médico especialista em reprodução humana e diretor da clínica Ferticlin, Raul Nakano, esse acúmulo se deve ao dilema das mães que passam pelo tratamento de fertilização, pois é delas a decisão sobre o material excedente. "Se por acaso eu tenho oito embriões, transfiro três ou quatro e congelo o restante. Se a paciente não engravidar, tem mais 4 pra colocar. Mas se ela engravidar de gêmeos, por exemplo, e não quiser mais (filhos), vai estar com um dilema. Ou ela doa, ou ela deixa na clínica pra colocar de novo, mais para a frente. É um dilema que até eu não gosto de passar por ele. É um dilema que a clinica vai sofrer e que a paciente vai passar dificuldade em resolver. E é por isso que as clínicas têm embriões sobrando. Nem as pacientes sabem o que fazer".

A quantidade de óvulos retirados depende da influência que a clínica recebeu - "a escola europeia é mais tradicional e conservadora no quesito tratamento, e tende a ser mais econômica. Tem algumas clinicas que sofreram influência da escola americana, que em termos de tratamento, são um pouco mais intervencionistas. Desperdiçam um pouco mais, talvez pela própria fartura que eles têm. São duas filosofias de trabalho", explica Nakano.

Outra grande diferença entre os tipos de tratamento está no próprio material que é coletado. Os maiores centros de reprodução na Europa defendem o congelamento de embriões como forma de evitar a gravidez múltipla. Porém, existe a discussão sobre a existência de vida ou não nesse estágio de reprodução.

Para contornar o dilema, há clínicas que preferem congelar óvulos. De acordo com Raul Nakano existe um "movimento internacional" neste sentido. "O óvulo é uma célula viva, é como se fosse um espermatozóide, você não está infringindo nem a ética, nem a religião. Não está infringindo nada, porque todo o mês a mulher desperdiça um óvulo também. E dentro dessa ótica, a gente também prefere guardar o óvulo. Se a mulher engravidar de gêmeos ou trigêmeos, ela não necessitaria utilizar mais nenhum", diz Nakano.